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Publicado em 02/01/2021 12h12.

Das coisas que aprendi nos discos - Especial O Clube dos 27 - Robert Johnson, 1911/1938

Pode-se dizer que o Rock n’ Roll, como nós o conhecemos, não existiria se não fosse Robert.
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Das coisas que aprendi nos discos - Especial O Clube dos 27 - Robert Johnson, 1911/1938
Foto: Divulgação

Por Carlos H. Kruschewsky*

LP: Robert Johnson King of the delta Blues singer

"You can run, you can run
Tell my friend Wille Brown
(Th)’at I got the crosroad blues this mornin’ Lord
Baby, I’m sinkin’ down"

Se você já tomou a decisão de aprender um instrumento musical, deve ter se deparado com a pergunta: “Em quanto tempo eu consigo sair do zero até ser um instrumentista habilidoso?”. A Resposta a essa pergunta costuma ser preponderante na decisão de aceitar a árdua tarefa ou, de repente, desistir dela. A resposta para isso é simples. Tudo depende de um tripé: Tempo, Desejo e habilidade. Algumas pessoas nascem com tamanha habilidade, que possuem uma vantagem no processo de aprendizado; outros têm tanto desejo que se dedicam noite e dia para forjar em si a habilidade que lhes faltou, mas, seja como for, tempo para dedicar-se a arte musical é o que é mais importante. Treino demanda tempo, obter maturidade musical demanda tempo, estudo demanda tempo. Como será que o jovem Robert Leroy Johnson gastava o seu tempo?

Foto: Reprodução

Pode-se dizer que o Rock n’ Roll, como nós o conhecemos, não existiria se não fosse Robert. O Blues, sobretudo, foi inteiramente construído sobre as frases de guitarra que Robert compôs ao longo dos seus 9 anos de atividade. Bandas como Aerosmith, Led Zeppelin, Rolling Stones, Red Hot Chili Peppers; artistas como Sonny Boy Williamson, Janis Joplin Jim Morrison, Eric Clapton, Muddy Waters, Little Walter e Chuck Berry nunca fariam seu som, se antes deles não tivesse existido a genialidade de Robert Johnson.

Obviamente nem sempre foi assim. Robert era um sujeito simples, negro, filho de ex-escravos, um guitarrista medíocre, quase sem talento algum para a música. Frequentava casas de Blues e idolatrava artistas neste estilo. Para onde quer que fosse tinha um violão pendurado nas costas, mas com frequência era impedido de tocar em público, tamanho era sua inabilidade com o instrumento. Uma certa noite Robert foi ao um show numa das casas de blues que sempre frequentava. Estava ansioso, pois a dupla que tocaria (o Son House e o Wille Brown) era uma de suas duplas favoritas. No intervalo da apresentação, Robert, munido de coragem, subiu no palco, pegou uma das guitarras e tocou. Infelizmente uma das cordas arrebentou e ele foi expulso do lugar sob humilhação pública. Decepcionado Robert cruzou a porta do salão com o peso de seu violão e sua vergonha sob as costas e desapareceu. Um ano depois ressurgiu como o melhor guitarrista que o delta do Mississipi já tinha visto.

Pouco se sabe sobre a infância e a adolescência de Robert Johnson. Muitos historiadores se lançam à tarefa de pesquisar sobre sua vida, mas a verdade é que em sua época, poucos estavam interessados no que um negro, filho de ex-escravos e nascido no Mississipi, o pior lugar para um negro nascer no fim do século XIX e início do XX. Foi um período histórico bem complexo, conhecido por linchamentos públicos, principalmente de negros. Por qualquer motivo, negros eram apanhados nas ruas e linchados, enquanto uma multidão de brancos assistia. Bem verdade que um sujeito genial, tocando blues e revolucionando todo um estilo musical não passaria despercebido naquela época. Entretanto as composições de Johnson causavam calafrios em quem prestava alguma atenção. Músicas como Cross Road Blues (Blues da encruzilhada), Me and The Devil Blues (Eu e o Diabo Blues) e If I hearted possession over judgment day (se eu fosse o dono do dia do julgamento) colaboravam com uma história macabra. Passaram a dizer que na noite em que Robert Jonhson desapareceu, ele foi até uma encruzilhada, caiu de joelhos e ofereceu seu violão ao diabo. O Diabo da encruzilhada pegou o violão de Robert, afinou e devolveu ao rapaz. Disse que ele teria fama e sucesso, mas que quando a hora chegasse, ele viria buscar sua alma.

Se essa história era verdade, nunca saberemos. O que se sabe é que os brancos que costumavam linchar negros deixavam Robert em paz. Afinal, parecia perigoso mexer com um sujeito que tinha um pacto com o próprio capiroto. Robert tinha hábitos estranhos. Dizem que se alguém estivesse prestando bastante atenção enquanto ele tocava, logo ele se virava para o canto da parede e tocava de costas para o público. Como todos já sabem, teve apenas 9 anos de atividade e o único registro gravado de Robert Leroy Johnson é esse LP póstumo. Robert morreu aos 27 anos, no dia 16 de agosto de 1938, por causas misteriosas. Dizem que uivava como um lobo e dizia ver cães do inferno vindo buscá-lo.

Detesto ter que fazer esse último parágrafo e destruir toda uma narrativa construída através da lenda do Robert. Mas durante o ano em que passou desaparecido, Johnson voltou para sua cidade natal e foi treinado por um instrumentista muito mais habilidoso que ele, Ike Zimmerman, conhecido por ser o melhor guitarrista de sua época, no Delta do Mississipi. Entretanto, Robert morria de vergonha de que o escutassem tocando. Passava horas a fio treinando em seu instrumento, sentado numa lápide de cemitério (afinal, os que estavam lá não se importavam se ele era bom ou ruim), o que colaborava para a construção da mística que o envolvia.

Foto: Reprodução

As histórias sobre o Pacto e o Diabo serviam de metáfora para o medo que ele sentia de morrer como outros negros em seu estado, além de manter seus inimigos longe dele. Sobre sua morte, a hipótese mais aceita é a de que numa noite de show, Robert havia cantado a esposa do dono do bar em que tocava e esse serviu a ele uma garrafa de Whisky envenenada com estricnina (versão confirmada por Sonny Boy Williamson, outro grande músico de Blues, que estava com Robert e viu o lacre da garrafa violado). Daí, todas as complicações que aconteceram em torno da sua morte. Não se sabe onde Robert foi enterrado e imagina-se que seus restos mortais estejam enterrados numa vala comum como indigente. Mas em que versão dessa história você vai acreditar, aí é com você.

Robert Johnson gravou 29 músicas. Este é o LP mais conhecido dele e foi gravado entre 1936 e 1937; possui 18 faixas. Foi lançado meses após sua morte, para brancos, num teatro onde só havia no palco uma vitrola e o disco rodando. Foi aplaudido de pé por mais de 10 minutos, pela plateia lotada.

Melhores faixas (difícil dizer, o disco inteiro é incrível, mas vamos lá):
• Cross Road Blues
• Me and the Devil Blues
• Sweet Home Chicago

*Carlos H. Kruschewsky é psicólogo, psicanalista, presidente do Dragornia Moto Club, BeerSommelier, Homebrewer, sócio da Dragornia Cervejaria e Colecionador de Discos. Instagram: @sr.ck @dragornia

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