
O mês de janeiro, marcado pela campanha Janeiro Branco, amplia o debate sobre saúde mental e convida a sociedade a refletir sobre práticas e discursos que adoecem silenciosamente. Entre eles, a naturalização da exaustão materna aparece como um dos principais fatores de sofrimento psíquico entre mulheres que exercem a maternidade.
A romantização do cansaço, tratada como prova de amor, vocação ou destino, sustenta uma lógica que valida a anulação feminina e transforma o esgotamento em virtude moral.
Na prática clínica, os efeitos dessa lógica aparecem de forma recorrente. Muitas mães chegam aos atendimentos carregando culpa por estarem cansadas, vergonha por desejarem pausa e medo constante de não corresponderem ao ideal da “boa mãe”.
O cansaço deixa de ser percebido como algo reparável quando o descanso já não restaura, o sono não recupera e o prazer de existir para além da função materna se apaga. A maternidade passa a ser vivida no modo sobrevivência, atravessada por autocobrança e sensação persistente de falha.
Para a psicóloga Maiumi Souza, especialista em Gestalt-Terapia e Desenvolvimento Infantil, o impacto emocional dessa exaustão contínua é profundo e atinge não apenas as mães, mas também os vínculos construídos com as crianças.

“A exaustão materna é naturalizada porque a maternidade ainda é pensada como destino, vocação e prova de amor. Essa lógica romantiza a entrega total e transforma o cansaço em virtude. Quanto mais a mãe se anula, mais ela é validada socialmente. O impacto emocional disso é profundo. A exaustão contínua vai corroendo a vitalidade psíquica, o senso de si e o prazer de existir para além da função materna. No vínculo, o risco é estar presente apenas no corpo. A mãe faz, cuida, responde, mas sem disponibilidade emocional real. Para as crianças, isso pode significar menos espaço para troca viva, espontaneidade e para a experiência de se sentir visto e sentido. Não é uma questão de culpa individual, mas de contexto. Cuidar da saúde mental das mães é também cuidar do desenvolvimento das crianças, porque vínculos se constroem com presenças possíveis, não com heroísmos exaustos”, afirma.
Ao longo do Janeiro Branco, especialistas reforçam que falar de saúde mental materna exige deslocar o debate do campo individual para o coletivo. Reconhecer limites, construir redes de apoio e romper com a lógica do sacrifício permanente são passos fundamentais para sustentar vínculos mais saudáveis desde o início da vida.
Maiumi Souza é psicóloga, especialista em Gestalt-Terapia e Desenvolvimento Infantil. Atua com foco em saúde mental, maternidade, infância e cuidado perinatal, integrando saberes da neurociência, psicologia do desenvolvimento e estudos sobre trauma. Sua prática é orientada por uma escuta ética, politicamente implicada e comprometida com o cuidado dos vínculos desde o início da vida.
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