
Apesar de avanços e endurecimento das leis que protegem as mulheres, casos de violência não param de crescer. Em todo o Brasil, os números de feminicídios assustam. Campanhas têm sido realizadas nas ruas e nas redes sociais, com o intuito de denunciar esses casos e debater o tema. A delegada Lorena Almeida, titular da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) de Feira de Santana, participou do podcast do Acorda Cidade, onde destacou que o tema da violência doméstica é extremamente complexo e precisa ser debatido constantemente.

Lorena abordou o papel crucial da educação no enfrentamento da violência doméstica. Ela destacou que esses crimes são os mais registrados no Brasil, superando furtos, roubos e tráfico de drogas, e falou sobre a subnotificação de casos, especialmente entre mulheres de maior nível educacional ou renda, que evitam relatar por medo de exposição ou vergonha. A delegada chamou atenção para o ciclo da violência, que muitas vezes começa com comportamentos controladores, vistos como carinho ou amor, e que evoluem para formas mais graves de violência, culminando em feminicídios.
A delegada também alertou meninas que estão iniciando a vida amorosa para que fiquem atentas a comportamentos de controle disfarçados de cuidado e destacou a importância do diálogo com essas meninas. Ela também chamou atenção para homens mais velhos que se relacionam com meninas muito jovens. “Isso não é normal e não pode ser normalizado.”
Por que o aumento do número de feminicídios no Brasil?
A delegada Lorena Almeida respondeu essa pergunta. Segundo ela, toda vez que um grupo historicamente marginalizado, como as mulheres, conquista direitos, observa-se uma reação de setores conservadores da sociedade que tentam manter o status quo. Esse cenário gera um ambiente de retrocesso e reforça discursos machistas, criando uma percepção de que as conquistas femininas, como o direito ao trabalho e à independência financeira, representam uma ameaça ao papel tradicional dos homens.
Para a delegada, embora as mulheres tenham avançado em direitos como o acesso ao mercado de trabalho, cargos de liderança e melhores salários, essa independência não foi acompanhada por uma divisão igualitária das tarefas domésticas e do cuidado com os filhos. Assim, muitas mulheres se veem sobrecarregadas, e esse mesmo contexto exaustivo tem gerado discursos de aceitação entre algumas mulheres de que abrir mão de direitos seria a solução. Essa dinâmica retroalimenta a violência estrutural contra a mulher e cria um ambiente propício para o aumento de casos graves, como o feminicídio, muitas vezes acompanhado de tentativas de justificativa para os crimes.
Lorena Almeida ainda ressaltou o endurecimento recente das leis penais relacionadas ao feminicídio, como o aumento da pena para 40 anos e a proibição da tese de legítima defesa da honra no Tribunal do Júri. No entanto, ela ponderou que leis mais duras sozinhas não são suficientes e destacou a necessidade de mais ações educativas, sensibilização social e apoio às mulheres em situação de vulnerabilidade. “Ainda temos um longo caminho pela frente para desconstruir séculos de violência estrutural contra a mulher, e isso só será possível com a união de esforços para promover mudanças culturais e institucionais”, afirmou.
🎧 Acesse o episódio completo que já está disponível nas principais plataformas de áudio. Ouça agora abaixo:
Siga o Acorda Cidade no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Participe também dos nossos canais no WhatsApp e YouTube e grupo de Telegram.