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Publicado em 05/07/2017 08h06.

Lojas geridas por mulheres tomam conta de bairros em Feira de Santana

A reportagem do Acorda Cidade foi conferir de perto como funcionam alguns desses estabelecimentos na cidade e descobriu histórias de sucesso de empreendedorismo feminino, economia criativa, além de muitos sonhos realizados e outros que estão por vir.
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Lojas geridas por mulheres tomam conta de bairros em Feira de Santana
Foto: Rachel Pinto/Acorda Cidade

Rachel Pinto

As lojas localizadas nos bairros têm se tornado um grande atrativo para o comércio e a economia de Feira de Santana. Geralmente instaladas em espaços pequenos, elas são de vários segmentos, geridas por mulheres e também trazem como diferencial o capricho na decoração, no atendimento e a proximidade com os consumidores.

A reportagem do Acorda Cidade foi conferir de perto como funcionam alguns desses estabelecimentos na cidade e descobriu histórias de sucesso de empreendedorismo feminino, economia criativa, além de muitos sonhos realizados e outros que estão por vir. Visitamos os bairros: Sobradinho, Cidade Nova e Tomba e mergulhamos nesse universo de coragem, trabalho e muita dedicação.

Nossa primeira parada foi na loja A Patricinha, localizada na Rua Landulfo Alves no bairro Sobradinho. O nome é curioso e convidativo, assim como a vitrine da loja que é repleta de artigos para presente, decoração e objetos coloridos. A proprietária Lígia Paula Silva, de 40 anos, tem como sua melhor recepção um belo sorriso no rosto e muita simpatia.

O espaço é acolhedor e envolvente e os olhos de quem chega circulam por todo o ambiente, hipnotizados por todos os produtos e a organização dos objetos. São canecas, portas-retratos, necessaires, chaveiros, almofadas, acessórios infantis, femininos, perfumes e uma variedade de presentes temáticos.

Lígia conta que a loja é a sua primeira experiência como pequena empreendedora. A vontade de ter o próprio negócio partiu da insatisfação profissional em empregos anteriores e da coragem de buscar a independência através do novo.

“Eu já fui gerente de loja, já trabalhei no shopping e vendia como sacoleira alguns produtos como bolsas para aumentar minha renda. Um dia resolvi mudar de vida e ao levar minha filha na escola vi um ponto comercial que estava para alugar. Pensei que ali poderia iniciar o meu negócio e então conversei com a dona para me dá um prazo até eu levantar o dinheiro do aluguel. Com muita coragem e ousadia eu montei a loja e comecei a vender algumas bolsas que eu já tinha e alguns presentes”, conta.

Segundo Lígia, a ‘ficha caiu’ e o sucesso da loja aconteceu mesmo no primeiro dia das mães em que a loja funcionou. As vendas de presentes temáticos foram recorde e assim a loja ficou bastante conhecida no bairro. Pouco tempo depois ela se mudou para um espaço maior, expandiu algumas mercadorias e inclusive começou a desenvolver talentos na área de artesanato. Em um espaço da loja, Lígia montou o seu ateliê e o seu cantinho criativo de invenções e ideias. Com a ajuda de uma amiga, ela aprendeu a fazer laços de embalagens para presentes e também de forma autodidata aprendeu a costurar e passou a criar produtos como jogos americanos e outros itens de decoração.

O nome da loja A Patricinha é o mesmo nome da loja de uma prima que fica no interior da Bahia e traz lembranças do tempo de sacoleira e de viagens que as duas faziam para comprar mercadorias.

“A loja pegou como loja de presentes temáticos e eu também comecei a criar alguns produtos, principalmente laços e acessórios infantis. As pessoas procuram muito embalagens para presentes e assim eu comecei a colocar outros produtos. Viajo para comprar mercadorias fora do estado e também compro através de representantes. Tenho clientes da cidade inteira e busco utilizar também as redes sociais para fazer a divulgação da novidades. Procuro sempre tratar os clientes com carinho, respeito e muita atenção. Meu diferencial é o atendimento e o contato direto com meu público”, diz.

Marildes Santos Nascimento, que é cliente da loja, enfatizou que prefere comprar o que precisa nas lojas do bairro Sobradinho, do que ir para o centro da cidade. Ela sempre encontra tudo que precisa e tem mais conforto e comodidade.

“Prefiro comprar aqui pelo bairro. A gente precisa de uma coisa se já sabe onde encontrar perto de casa. Não precisa pegar trânsito, nem ir ao centro da cidade. Para mim é muito mais cômodo”, justificou.

Na mesma rua, há alguns metros visitamos a loja Belíssima de artigos de moda íntima e de moda praia. Nadja Nascimento é a proprietária e está há oito anos com a loja. Ela diz que também tem clientes da cidade inteira e depois de trabalhar como sacoleira e atendente de laboratório resolveu montar o próprio negócio no mesmo bairro onde mora.

A loja trabalha com peças íntimas de todos os modelos e para todas as idades. Há também uma pequena seção com produtos de sexshop e as calcinhas e os biquínis são os produtos queridinhos do clientes. Nadja viaja para comprar mercadorias e procura estar sempre atenta ao que está na moda da estação e ao gosto dos clientes.

“Observo o que está na moda. Se um cliente procura algo que eu não tenho, eu vou logo providenciar. Meu esposo também trabalha aqui, me ajuda e eu tenho duas funcionárias. Nosso lema é oferecer preço e qualidade para os clientes. O cliente vem aqui comprar e é ele que acaba nos ensinando sobre muitas coisas. Nesses anos todos de trabalho posso dizer que tive grandes aprendizados”, relata.

Juventude empreendedora

Depois de se formar em contabilidade e trabalhar como recepcionista, atendente de telemarketing, Mariane Silva de 32 anos, resolveu abrir sua própria loja. Ela afirma que não estava mais se identificando nem obtendo o retorno financeiro necessário na área de contabilidade e esses fatores, assim como a independência foram cruciais para mudar de vida. Maiane abriu a Loja Sou mais Diva, no Bairro Cidade Nova há três anos e segundo ela, só há motivos para comemorar.

“Senti muita dificuldade para encontrar emprego e quando encontrava não pagava muito bem. Mesmo com medo acabei arriscando e deu super certo. Estou conseguindo vencer todas as dificuldades. Não fecho para o almoço. Em épocas festivas funciono em horário especial. Gosto muito de trabalhar com isso. Eu achava que nunca iria me sair bem com vendas. Mas, sempre estou na loja e atendendo. Prefiro atender diretamente o meu público e buscando sempre estar antenada com o que é tendência”, completa.

Maiane comenta que uma das formas de enfrentar a crise e driblar a concorrência é realmente investir e oferecer peças diferenciadas e exclusivas para os clientes. Além disso, ela aposta na divulgação através das redes sociais e manter o contato virtual com os clientes. A loja de artigos femininos também tem o serviço de pronta entrega e as maiores dificuldades, segundo a pequena empresária são os valores dos alugueis no bairro e também a dificuldade de crédito oferecido para os pequenos empreendedores pelas instiruições financeiras.

“Eu tenho sempre peças atualizadas com o que é moda e o que é tendência. Acompanho tudo que é novidade e trago para vender na loja. Muitas vezes são essas essas peças exclusivas que garantem a minha sustentabilidade em alguns períodos e o que eu acho mais difícil são os valores dos alugueis no bairro e também a falta de incentivos em relação ao crédito”, afirma.

A jovem empresária também pontua que ter o próprio negócio tem lhe permitido pagar todas as contas, morar e se manter sozinha. O lucro ela investe maior parte em mercadorias e sua preocupação é melhorar o serviço e o atendimento para os clientes.

A loja Sou Mais Diva, funciona em um pequeno espaço no bairro que custa R$500 o aluguel. As mercadorias são muito bem organizadas e o lugar tem seu charme em alguns móveis e objetos de decoração.

A estudante de psicologia Talita Viana Bispo, de 25 anos achou que transformar seu gosto por acessórios e bijuterias no próprio negócio seria uma boa alternativa para aumentar a sua renda. Junto com o marido, ela abriu a loja de acessórios Benta Vaidosa no bairro Cidade Nova.

A jovem salienta que de início pensou em montar a loja no centro da cidade. Mas, depois fazendo pesquisas sobre mercado, preços e concorrências observou que abrir a loja próximo de onde mora seria uma forma de unir o útil ao agradável. Além disso, ter preço igual ou mais baixo do que as lojas do centro é o seu maior atrativo.

“Tenho só três meses com a loja aberta e não posso reclamar. O movimento é bom e antes de abrir eu fui em todas as lojas do centro pesquisar preços. Também observei as lojas que já existiam no bairro. Vi que ainda não tinha loja de acessórios e então decidimos empreender nesse setor. A sogra fez um empréstimo e desde então estamos aqui atendendo principalmente ao público feminino de todas as idades. Meu marido que é bancário organiza a parte contábil e financeira e eu fico com a responsabilidade de escolher as peças e dar o meu toque na loja”, comenta.

Escarlete Moura, de 20 anos que mora e trabalha no bairro Cidade Nova é cliente da loja e para ela, o local tem muitas opções de produtos, bons preços e ela pode consumir o que precisa sem necessariamente se deslocar para o centro comercial.

“Para mim é ótimo comprar no bairro. Eu aproveito melhor o meu tempo e consigo encontrar vários produtos que preciso. Gosto de comprar aqui maquiagem e acessórios que tem boa qualidade e bons preços”, salientou.

A Loja Benta Vaidosa chama muita atenção na organização das mercadorias, na decoração e a simpatia, o atendimento e o sorriso de Talita são um cartão de visita a parte. A empresária coloca o atendimento como prioridade e pensa também em expandir o negócio abrindo futuramente mais uma loja em outro bairro.

Qualidade de Vida

Questionando a própria vida, sua ausência na criação dos filhos a necessidade de ter mais qualidade de vida a estudante de publicidade Iza Alencar de 34 anos deixou o trabalho em uma empresa de comunicação e junto com o marido montou o próprio negócio. Muito corajosa e curiosa, ela optou comercializar calçados de marcas populares no bairro Tomba na Loja Belart Calçados.

“Eu sempre me dediquei e me empenhei muito em trabalhar para os outros. Percebi que essa mesma garra eu posso usar para o meu negócio. Na verdade não foi uma escolha, foi algo que eu digo que foi presente de Deus. A princípio nós queríamos montar um armarinho e fizemos pesquisas de mercado, e qual seria o segmento mais adequado. Vimos que calçado seria melhor e abri a loja há oito meses. Trabalhamos com representantes, com marcas conhecidas e nosso diferencial é o preço. Temos calçados a partir de R$35. A loja trouxe mais independência e não tenho aquela preocupação se nessa crise vou ficar desempregada ou não. Uma vez eu vi uma mensagem muito importante e que me inspirou bastante: ‘Se você não trabalha para construir o seu sonho, você vai trabalhar para construir o sonho de alguém’”, reflete.

Loja de bairro com cara de loja conceito

Iza Alencar pontua que sua maior preocupação além de oferecer ao cliente um bom preço e qualidade, é oferecer um ambiente atrativo, aconchegante e o que o faça de sentir em casa e se sentir bem. A fala da empresária é representada na estrutura e em todos os ambientes da loja. A decoração rústica, com flores, verde e móveis em madeira trazem uma sensação de bem-estar e paz.

“Pensamos em fazer uma loja de bairro com cara de loja conceitual. Para as pessoas que não podem ir até o centro da cidade e que moram no bairro. É uma loja com uma roupagem diferente e temos o objetivo de dizer para as pessoas que elas têm o seu espaço aqui. Que elas precisam e merecem ter o diferencial. Busquei várias ideias conversando com pessoas e também inspirações na internet. Eu pensei a decoração da loja, utilizo as redes sociais para divulgação e também vamos à casa do cliente atendê-lo. O que cativa o cliente é o atendimento. A gente vê o cliente como parceiro e cada pessoa que entra aqui não é um objeto de lucro e de ganho, ela é vista como um ser humano e que tem as suas necessidades”, comenta.

Publicitária nata e evangélica, Iza não vê a crise como um impedimento e afirma que não se deve profetizar a crise e sim profetizar Cristo. Ela considera que atualmente o crédito é o maior problema do pequeno empresário e faltam muitas iniciativas das instituições financeiras.

“Temos grandes obstáculos principalmente em relação aos bancos. Há muitas barreiras e para vencer temos que geralmente iniciar com recursos próprios e ir com a cara e coragem”, observa.

Muito comunicativa e simpática, a jovem empresária fala que tem sonhos de ampliar o negócio e toda a mudança de vida valeu muito a pena. “Valeu e vale muito a pena. Eu achava que não ia dar conta, mas basta ter determinação, coragem, foco, força e disciplina que a gente consegue. Deus é maravilhoso e eu tenho conseguido dar conta de todas as responsabilidades”, relata.

A Belart Calçados também oferece aos clientes uma consultoria de moda com uma Personal Stilist. Uma blogueira de moda da cidade é parceira da loja e dá aos clientes dicas de como montar looks e como combinar as roupas e acessórios ao calçado escolhido.

Estabilidade financeira

Ainda no bairro Tomba, um dos bairros com grande concentração de estabelecimentos comerciais de todos os segmentos, descobrimos a Loja Milano Modas. Literalmente uma loja de bairro com cara de loja de shopping. Em um ambiente projetado com luminárias, paredes e cores em tons pasteis a loja tem como proprietária a senhora Cleuza Bastos.

Há 12 anos ela trabalha vendendo confecções, feminina, masculina e infantil e diz que sempre teve vocação para o comércio.

“É um ramo que eu sempre gostei de trabalhar. O ponto é meu e aos poucos eu venho aperfeiçoando. Investi em reforma, contratei uma arquiteta e mudei decoração, a cara da loja. Eu me vejo como um diferencial aqui no bairro.

A empresária conta que pensa também em crescer e expandir a loja. O retorno financeiro que obteve ao longo dos anos utiliza investindo no negócio e também na formação dos filhos e na oferta de mais conforto e mais qualidade de vida para toda a família.

“Tiro o sustento e busco sempre proporcionar o melhor para aos meus filhos e minha família. Apesar das dificuldades tenho muitos sonhos que penso em realizar. A gente nunca pode perder as esperanças”, finaliza.

Empreendedorismo Feminino

As lojas nos bairros são um grande reflexo do empreendedorismo feminino e a importância da mulher da economia. A cada dia a mulher se destaca mais na sociedade, no mercado de trabalho, nas famílias e são muitos os casos de sucesso, geração de emprego e negócios que dão certo vão se consolidando e adotando perspectiva de ampliação.

Reforçam na prática a condição da mulher assumir com compromisso e competência múltiplas funções profissionais e sociais. A nossa reportagem ficou encantada com esse universo na cidade de Feira de Santana e como tantas mulheres estão sendo donas das próprias vidas e próprias histórias. 

Fotos: Rachel Pinto


 

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