Itajay Pedra Branca
Itajay Pedra Branca | Foto: Arquivo Pessoal

Uma voz se calou. E não é qualquer voz. Silencia-se uma das maiores referências da narração esportiva da história do rádio em Feira de Santana e no Brasil. Itajay Pedra Branca, referência incontestável da comunicação, encerra um ciclo marcado por profissionalismo, credibilidade e uma presença sonora que atravessou gerações.

O comunicador faleceu na manhã desta quarta-feira (7), em um hospital particular de Feira de Santana, onde estava internado há 47 dias. Ele deu entrada na unidade de saúde em 20 de novembro de 2025 para tratar uma pneumonia. Após quase 30 dias de internamento, foi transferido para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde permaneceu por mais 18 dias.

Durante esse período, foi constatado que a pneumonia era de origem fúngica e evoluiu para um quadro de fibrose pulmonar, o que dificultou drasticamente a respiração e a resposta do organismo aos medicamentos. Ainda no leito da UTI, recebeu o sacramento da unção dos enfermos, ministrado pelo arcebispo metropolitano, dom Itamar Vian.

Dono de uma voz forte, grave e inconfundível, Itajay fez companhia diária a milhares de ouvintes — dentro de casa, no trânsito, no trabalho e nos momentos de lazer. Era ouvido tanto na zona urbana quanto na zona rural. Sua narração marcou domingos esportivos e também esteve presente nos feriados, datas festivas e dias comuns, sempre com o compromisso de levar informação, emoção e identidade às ondas do rádio.

Prestes a completar 80 anos — celebrados no dia 28 de novembro, ainda no leito hospitalar —, seguia em plena atividade profissional. Atuava há 31 anos na Rádio Povo, mantendo firme o compromisso com o jornalismo e com os ouvintes que o acompanharam ao longo de décadas.

Foi, entretanto, na Rádio Sociedade de Feira de Santana, administrada pela Ordem dos Frades Capuchinhos — hoje Rádio Sociedade News FM — que sua voz se consolidou, ganhou projeção nacional e se tornou referência. Quem nunca ouviu ecoar pelas ondas do rádio a vinheta marcante: “Itajay Pedra Branca!”?

Na emissora, emprestou sua voz por 27 anos. Foi ali que levou o nome de Feira de Santana ao estádio de Wembley, em Londres, na Inglaterra, na primeira transmissão internacional da rádio. A partir desse marco, ampliou fronteiras e esteve por toda a Europa, com destaque em fatos mundiais em cidades como Paris, Stuttgart e Roma, alem de toda a América Latina consolidando-se como um dos profissionais mais internacionais da imprensa feirense.

A relação de Itajay Pedra Branca com o rádio começou muito cedo, aos oito anos de idade, como cantor em programa de auditório da Rádio Cultura, no tradicional Programa Brasil de Amanhã, exibido aos domingos.

Foi nessa emissora que surgiu a oportunidade de integrar o Departamento de Esportes. Posteriormente, migrou para a Rádio Sociedade, onde construiu a maior parte de sua trajetória profissional.

Costumava dizer que sua grande escola foi a própria vivência no rádio, sempre guiado pela máxima de Edval Souza: “Se não quer que a notícia seja divulgada, não deixe que o fato aconteça.” Com esse espírito, levou o nome de Feira de Santana a 132 países.

Entrou para a história ao se tornar o primeiro repórter do mundo a noticiar, para a América do Sul, diretamente da Praça de São Pedro, no Vaticano, o atentado ao Papa João Paulo II, em 13 de maio de 1981 — época em que ainda não existiam telefones celulares —, por meio das ondas da Rádio Sociedade de Feira de Santana.

Ao longo da carreira, cobriu oito Copas do Mundo e inúmeros outros grandes eventos esportivos, incluindo quatro olimpíadas. Narrava com emoção, estilo próprio e identidade inconfundível. Anunciar um gol ou destacar uma jogada especial era, para ele, um exercício de talento que transformou sua voz em símbolo do rádio esportivo.

Também teve passagem pela Rádio Subaé, em 1987, quando foi convidado a cobrir a Copa América.

Na imprensa feirense oficial é fundador do setor de Comunicação Social da Prefeitura de Feira de Santana à época do prefeito José Falcão da Silva, seu amigo pessoal.

Na Secretaria de Comunicação exerceu também a função de repórter, redator e mestre de cerimônias, atividade que continuou desempenhando mesmo após a aposentadoria no serviço público municipal.

Nos tradicionais desfiles cívicos de 7 de Setembro, Itajay Pedra Branca marcava presença no palanque oficial, ao lado das autoridades, anunciando, com sua voz inconfundível, a passagem de pelotões, fanfarras, estudantes e a participação popular por um período de mais de 40 anos.

Homem simples, avesso a vaidades, mas de presença marcante, mantinha uma rotina discreta e era rigoroso com o trabalho — feriados, para ele, eram dias como quaisquer outros. De fé silenciosa, cultivava uma devoção íntima a Santo Antônio conduzindo sua trajetória com humildade, disciplina e compromisso.

Essa voz tão marcante e admirada agora se cala. Mas sua sonoridade jamais será esquecida. Itajay deixa a esposa, a professora Jaci Ferreira Pedra Branca; dois filhos, o radialista e pedagogo Itajay Júnior e o jornalista e professor Andrews Ferreira Pedra Branca; além das netas Laura e Maria Dulce.

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