
A Lavagem do Bonfim é uma tradição secular em Salvador e a movimentação popular do dia de homenagens, celebrado nesta quinta-feira (15), cresceu marcada pelo cortejo das baianas. Ao longo dos anos, os personagens que normalmente realizavam o trajeto da Basílica Santuário Nossa Senhora da Conceição da Praia até a Basílica Santuário Senhor do Bonfim mudaram, a presença das baianas diminuiu e o cortejo, como era antigamente, deixou de existir.
Nascida da resistência de pessoas negras escravizadas que se apoiaram no sincretismo religioso para cultuar os orixás, a participação das baianas é uma demonstração de fé espontânea e orgânica. Mas, com o passar do tempo, essas representantes da tradição deixaram de ser o centro da celebração e passaram a ter dificuldade para manter, financeiramente, a presença na festa.
Há uma década, o número de baianas reunidas para participar da lavagem das escadarias da basílica — ponto alto e definidor das celebrações do dia — era de cerca de 600, conforme a Associação Nacional das Baianas de Acarajé, Mingau, Receptivo e Similares (Abam). Em comparação com o ano de 2025, o número caiu drasticamente, quando apenas 80 baianas foram formalmente reunidas pela associação.
Esse número não representa todas as participantes da festa, já que há profissionais independentes, sem conexão com a Abam, e a própria entidade reconhece que há grupos que acompanham a lavagem de forma espontânea, saindo de diferentes pontos da cidade. Ainda assim, a avaliação é de que o cortejo, antes com centenas de baianas, foi perdendo adesão.
Para a coordenadora nacional da organização, Rita Santos, essa diminuição está ligada a uma mudança não só na dinâmica da festa, mas também nas ações públicas para fomento e proteção desta tradição. “Foi se perdendo isso porque não houve mais interesse nem do município, nem do estado em manter essa tradição. Mas não existe lavagem sem baiana”, critica.
Segundo Rita, que está na Abam desde 2001, a associação costumava receber auxílio público da Prefeitura de Salvador para arcar com os custos para a compra das jarras, água de cheiro e outros aparatos necessários para o ritual da lavagem. Mas, por volta de 2012, a organização parou de receber qualquer auxílio financeiro e a Abam se afastou da organização das baianas para o dia da festa.
“Não pode colocar as baianas sem pagar nada, porque é muita despesa. Jarras, flores, alfazema, tem que comprar água, um lanche… Nós não temos verba para isso, aqui somos todas voluntárias”.

Apesar de organizarem todas as baianas da Bahia e outros estados brasileiros, e terem o ofício reconhecido como Patrimônio Imaterial do Brasil, a Abam não recebe subsídios recorrentes para a manutenção das tradições perpetuadas por essas mulheres.
“Ninguém colabora com nenhum centavo. Nenhum dos três poderes [investe]. A gente é patrimônio nacional, o governo federal nos fez patrimônio [em 2005]. [Mas] O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) não fez até hoje nosso plano de salvaguarda”, apontou Rita.
O documento é um instrumento obrigatório para organizar ações de curto, médio e longo prazo que garantam a sustentabilidade de bens culturais imateriais.
“O Iphan diz que não tem dinheiro para fazer. Aqui no Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac), que é do estado e nos tornou Patrimônio Cultural em 2012, também não fez o plano de salvaguarda. Eles alegam que também não tem dinheiro para fazer”.
“A gente vai vendo cada dia com mais medo de que daqui a cinco ou seis anos outra lavagem deixe de existir. Já tem 10 anos que a Lavagem do Bonfim se tornou patrimônio e o número de baianas diminuiu”.
O g1 entrou em contato com a Prefeitura de Salvador, bem como Iphan, mas não recebeu retorno até a publicação desta reportagem. Em nota, o Ipac informou que a construção do Plano de Salvaguarda é um processo coletivo, que demanda o envolvimento direito dos detentores do bem cultural.
Além disso, o órgão detalhou que abriu um Edital de Chamamento Público destinado à seleção de projetos para a elaboração de Planos de Salvaguarda de bens culturais registrados na Bahia, mas um projeto apresentado pelo Instituto Baiano de Justiça Social sobre o ofício das baianas não conseguiu a média necessária para aprovação.
“O Instituto reafirma seu compromisso com a preservação dos bens culturais imateriais da Bahia e permanece à disposição para orientar, dialogar e apoiar iniciativas que contribuam para a elaboração futura do Plano de Salvaguarda do Ofício das Baianas de Acarajé, em consonância com as normas vigentes e os princípios da gestão compartilhada do patrimônio cultural”, ressalta. (Confira a nota na íntegra no final da reportagem)
Relação com a Igreja Católica
Neste contexto, a presença organizada das baianas reunidas pela Abam costuma enfrentar percalços. De acordo com Rita Santos, em 2024 e 2025, parte do recurso foi adquirido por meio da Igreja Católica, que ajudou a pagar pelos custos dos materiais.
Em 2026, na terça-feira (13), dois dias antes da lavagem, a Abam conseguiu firmar um acordo de apoio com a Superintendência de Fomento ao Turismo (Sufotur), que solicitou a presença de 130 representantes.
Ao g1, o padre Edson Menezes da Silva, que também é reitor da Basílica do Senhor do Bonfim, contou que, apesar do interesse em manter uma parceria contínua com as baianas, a igreja não tem condições de assumir as despesas.

“Essa responsabilidade, na sua totalidade, não é conosco. Gostaria muito, mas infelizmente não temos condições”, afirma.
Engajado na manutenção das celebrações a Senhor do Bonfim, padre Edson deu início a alguns projetos que antecipam a lavagem. Entre eles está a procissão de translado da imagem do santo até a Igreja da Conceição da Praia antes da festa e a criação de datas especiais, como a sexta-feira da gratidão (a última do ano) e da sexta-feira da proteção (a primeira do ano).
“Tudo para que a tradição continue viva, sendo preservada, e as necessárias adaptações sejam feitas para que nós possamos acompanhar as mudanças do tempo”, ressalta.
O sacerdote reforça que o papel da Igreja do Bonfim é de “unir os diferentes” e manter a convivência respeitosa com praticantes de religião de matriz africana. Levando em conta a raiz opressora da relação entre a Igreja Católica e esse grupo religioso, que levou a criação de estratégias como o sincretismo, o padre aponta que é importante manter reverência a todos que seguem linhas religiosas de origem africana e escolhem professar sua fé na basílica.
“Uma coisa que eu faço questão de ressaltar é o respeito, a reverência, a unção que cada pessoa que fez aquele processo, vem e expressa aqui na igreja, com respeito muito grande, às vezes até mais do que muitos católicos”.
Para Rita, a luta pela manutenção da presença das baianas é parte do DNA da mulher negra, que resiste historicamente às tentativas de apagamento. A coordenadora da Abam leva como um compromisso de vida impedir que mais manifestações culturais e populares se percam.
“A gente tem que manter a tradição para salvaguardar o que nossos antepassados deixaram. Eles sofreram muito, lutaram para deixar esse legado e temos que levar ele adiante”.

Confira a nota do Ipac na íntegra:
“O Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), unidade vinculada à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA), reconhece a importância dos Planos de Salvaguarda como instrumentos fundamentais para a definição de ações e estratégias voltadas à proteção, valorização e sustentabilidade dos bens culturais de natureza imaterial registrados.
Nesse sentido, o IPAC lançou, em agosto de 2025, um Edital de Chamamento Público destinado à seleção de projetos para a elaboração de Planos de Salvaguarda de bens culturais registrados no âmbito do Estado da Bahia. O objetivo da iniciativa foi fomentar, de forma transparente e democrática, a construção desses documentos por meio de propostas técnicas apresentadas por instituições habilitadas, em diálogo com os detentores dos bens culturais.
O projeto referente ao Plano de Salvaguarda do Ofício das Baianas de Acarajé, apresentado pelo Instituto Baiano de Justiça Social, obteve a pontuação de 69,3, não atingindo o escore necessário, o que resultou em sua desclassificação no processo seletivo. Em 29 de dezembro de 2025, o IPAC divulgou o resultado preliminar de habilitação das quatro propostas selecionadas., disponível no site da instituição: ipac.ba.gov.br
O IPAC ressalta que os Planos de Salvaguarda são, por definição, construções coletivas, que demandam o envolvimento direto dos detentores do bem cultural, de suas entidades representativas, além da atuação integrada de órgãos de preservação, técnicos especializados, universidades, gestores públicos e demais parceiros institucionais.
O Instituto reafirma seu compromisso com a preservação dos bens culturais imateriais da Bahia e permanece à disposição para orientar, dialogar e apoiar iniciativas que contribuam para a elaboração futura do Plano de Salvaguarda do Ofício das Baianas de Acarajé, em consonância com as normas vigentes e os princípios da gestão compartilhada do patrimônio cultural.”
Fonte: g1
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