
Ter dinheiro disponível em caixa não significa, necessariamente, pagar tudo à vista. Entre investidores de alta renda, a decisão de parcelar a compra de imóveis ou outros bens por meio de consórcio está menos ligada à falta de liquidez e mais à lógica de alocação eficiente de capital. O objetivo é simples, manter o patrimônio rendendo, usar dinheiro de terceiros e ampliar ativos sem imobilizar recursos próprios.
O movimento ocorre em um contexto de juros elevados e maior atenção ao custo do dinheiro. Dados da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC) mostram que o segmento imobiliário movimentou R$ 191,11 bilhões em créditos em 2024, alta de 35% em relação ao ano anterior, indicando que o consórcio deixou de ser uma solução restrita ao consumo e passou a integrar estratégias patrimoniais mais sofisticadas.
A lógica econômica por trás dessa escolha é conhecida como custo de oportunidade. Ao optar por pagar à vista um imóvel de alto valor, o investidor abre mão de manter esse capital aplicado em ativos que continuam gerando retorno. No consórcio, o recurso permanece investido enquanto a aquisição é planejada ao longo do tempo, sem incidência de juros sobre o saldo devedor.
Segundo dados do Banco Central, a carteira de consórcios cresceu 17,6% em 2024, com inadimplência de apenas 2,35% em dezembro, um dos menores índices entre as modalidades de crédito. O comportamento reforça o perfil de participantes mais organizados financeiramente e com visão de médio e longo prazo.
Para Juciel Oliveira, educador financeiro, estrategista patrimonial e CEO da Monteo, a decisão de parcelar mesmo tendo dinheiro disponível está relacionada à eficiência do uso do capital. “Investidores experientes entendem que patrimônio não cresce com dinheiro parado ou imobilizado de forma desnecessária. O consórcio permite manter o capital rendendo, usar recursos de terceiros e adquirir ativos de forma planejada, sem pagar juros”, afirma.

Na prática, a estratégia costuma combinar aplicações financeiras com a construção de patrimônio imobiliário. Em vez de retirar recursos de uma carteira que gera renda recorrente, o investidor utiliza os rendimentos para pagar as parcelas do consórcio. Quando a carta de crédito é contemplada, o imóvel passa a integrar o portfólio sem que o capital principal tenha sido consumido.
Esse modelo também amplia o poder de negociação. Com a carta contemplada em mãos, o comprador não depende de financiamento bancário e pode negociar descontos ou condições mais favoráveis, especialmente em momentos de mercado menos aquecido. Além disso, o uso do consórcio reduz a exposição ao risco de juros futuros, já que o custo da operação é conhecido desde o início.
Outro fator relevante é a preservação de liquidez. Manter recursos disponíveis permite ao investidor reagir a oportunidades inesperadas, diversificar aplicações ou reforçar posições em momentos estratégicos do mercado. “Liquidez é um ativo valioso. Quem entende isso evita concentrar todo o patrimônio em um único bem ou decisão”, explica Juciel.
O consórcio, nesse contexto, deixa de ser encarado como produto financeiro e passa a funcionar como método de planejamento. A aquisição do bem ocorre de forma organizada, integrada a uma estratégia maior de alocação de capital e crescimento patrimonial. “Não se trata de parcelar porque não pode pagar, mas de parcelar porque é mais inteligente do ponto de vista financeiro”, resume o executivo.
Com investidores cada vez mais atentos ao custo do dinheiro e à eficiência das decisões financeiras, o uso do consórcio tende a seguir crescendo entre patrimônios mais elevados. A prática reforça uma máxima recorrente no mercado: a riqueza sustentável não está apenas em quanto se ganha, mas em como se aloca o capital ao longo do tempo.
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